Futebol na Barra do Quaraí

A Barra do Quaraí é o cantinho do Rio Grande do Sul, numa não tão famosa tríplice fronteira (molhada para os dois lados) que tem, inclusive, uma pequena área de litígio – a famosa Ilha Brasileira, que se forma na confluência dos rios Quaraí e Uruguai e que tive a oportunidade de visitar em 2007. Como só tem ponte da Barra para o Uruguai, quase não se ouve falar dos argentinos por lá.

Do lado uruguaio, fica Bella Unión, que não é tão perto do rio quanto a Barra. Quando eu estava por lá, em 2007, ainda não tinham liberado os free shops. Hoje já tem. Não sei se mudou muito o aspecto das duas cidades que era, digamos, meio retrô. De qualquer forma, atravessar a fronteira, pelo menos pra mim, era sinônimo de Pilsen de litro, pizza, assado de tira e doce de leite. O pessoal, parece, também gostava de trocar os pneus dos carros que, dizem, era bem mais barato. No tempo que passei na Barra (umas três vezes por semana, por um ano) sempre fui muito bem tratado, coisas de cidade pequena.

A Barra tem algumas atrações bem pouco exploradas, como o Parque do Espinilho, que tem uma vegetação exclusiva da região. Acho que não é tão fácil assim de se visitar o Parque (nos EUA, provavelmente, teria até uma lojinha com imãs de geladeira, seja isso bom ou ruim), mas se tem uma boa ideia do que ele é ao longo da estrada que faz a ligação com Uruguaiana. Logo na entrada da sede do município, tem um prédio maravilhoso e decrépito, que era a antiga estação de trem. Grande parte das estações de trem do país, que não tenham sido demolidas, são maravilhosas e decrépitas. Depois, também tem a antiga ponte, os marcos imperiais e, claro, as ruínas do Saladero.

O Saladero nada mais era do que uma charqueada. Foi criado em 1887, com dinheiro inglês e mão de obra platina. Nele, nasceu o futebol na Barra do Quaraí, segundo contam, muito antes de 1900. Os primeiros times ali fundados chamavam-se Gaúcho, Farroupilha, Ideal e Operário. “Apenas” em 1912, na data pátria evidentemente, foi fundado o 7 de Setembro Futebol Clube, que resiste, ainda hoje, prestes a completar 107 anos. Ao longo de sua história, os setembristas tiveram dois grandes rivais, o primeiro chamava-se Fluminense e foi fundado em 1958; o segundo era o Barrense, fundado em 1972. Ambos já desapareceram.

Uma das grandes histórias do 7 é que ele contou por muitos anos com um goleiro Lara. Catarino Lara, sobrinho do célebre arqueiro gremista, começou a jogar no clube com apenas 11 anos e defendeu a meta do clube alvi-negro entre 1939 e 1969. Aliás, dando carona  para pessoas aleatórias entre a Barra do Quaraí e Uruguaiana, ouvi algumas histórias esquisitas. Uma delas dizia que Eurico Lara era originário de uma localidade que hoje pertence a Barra do Quaraí e não a Uruguaiana. Acho que não é verdade, mas que tem uma porção de Lara naquela região, isso tem.

O campo do 7 se chama Félix Guterres (os Guterres são outra família numerosa da Barra). Pelo que eu sei, existiu, pelo menos, mais um campo na cidade, o do Fluminense.

A maior parte do pouco que eu sei sobre o futebol barrense ouvi da boca do Sr. José Albino da Rosa, na época em que eu estive por lá. As recópias das fotos em preto e branco também foram ele quem me passou. A memória da Barra e do 7 também sobrevive por meio de abnegados como o Sr. Júlio Cézar Benites Teixeira, que mantém o excelente perfil do clube no Facebook. Aliás, não coloquei nenhuma foto do 7 na postagem, porque no perfil estão todas as fotos possíveis do clube. Coloquei aqui apenas as fotos que não estavam lá. Sobre a Barra, praticamente tudo o que é necessário saber está na página Trinacional. As outras fotos são de minha autoria, todas do ano de 2007.

4 comentários sobre “Futebol na Barra do Quaraí

  1. Júlio Teixeira disse:

    Bom trabalho, parabéns. O Sete de Setembro é história viva da cidade da Barra do Quaraí e do futebol fronteiriço. Ainda temos muito o que contar destes 107 anos de trajetória esportiva e cívica do nosso Clube.

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  2. Wagner disse:

    Não sabia da história de contestação da posse da Ilha Brasileira. Pelo que sei tem uma contestação uruguaia também pelo distrito de Albornoz, em Livramento. Taí uma ótima pauta pra algum jornalista contar essa história.

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    1. lreissouza disse:

      Pelo que eu sei, os limites foram decididos entre a Argentina e o Brasil, sem considerar os interesses do Uruguai. Ou, pelo menos, isso é o que o Uruguai pensa. Os tratados de limites entre a Argentina e o Brasil e entre a Argentina e o Uruguai são diferentes com relação às fronteiras com rio. Isso teria dado um pouco de confusão na determinação da tríplice fronteira. Tem um decreto uruguaio vigente, de 1974, que determina que os mapas mostrem a região como “limites contestados”. Tem tudo isso aqui: https://web.archive.org/web/20120508095108/http://www.info.lncc.br/wrmkkk/uilhab.html

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