Grandes Marcas – Cauduro Irmãos e Cia. Ltda., de Porto Alegre

Obs.: Eu gostaria de ter escrito uma boa história sobre a Cauduro, mas infeliz e surpreendentemente encontrei muito pouca coisa sobre a empresa. Essa postagem acabou sendo um apanhado de propagandas e quinquilharias em geral da coleção do 1PMFG ou da internet, o que não deixa de ser bem legal.

Em 1910, Hermenegildo Cauduro e João Cauduro Sobrinho, imigrantes italianos, fundaram, em Porto Alegre, a Cauduro & Irmão que, inicialmente, trabalhava com a produção ou venda de camas, colchões e artigos para viagem. O endereço original da empresa era na Praça Montevidéu (Praça XV), ao lado da tradicional Casa Pavão, no lendário Edifício Malakoff, considerado o primeiro “arranha-céu” de Porto Alegre.

1925 Malakof

O Edifício Malakoff, em 1925, com as vizinhas Casa Pavão e Cauduro Irmãos. Interessante que, oficialmente, o nome da empresa só passou a ser Cauduro Irmãos em 1932, embora, na foto, leia-se claramente essa nomenclatura no letreiro.

É difícil saber ao certo quando a empresa entrou no ramo de artigos esportivos, mas fato é que, pelo menos até 1928, os anúncios de jornal da loja não faziam menção alguma a essa atividade. O que se vê, desde sempre, é que os irmãos Cauduro eram desportistas natos, apoiando eventos de diversas modalidades e competindo em dupla na bocha. João Cauduro Sobrinho foi, inclusive, presidente da Sociedade União Villa Nova, tradicional entidade poliesportiva da Zona Sul de Porto Alegre (muito forte na bocha, mas que chegou a jogar futebol de campo e, posteriormente, futebol de salão), em 1937.

Cauduro A Federação Maio 1928

Anúncio de maio de 1928, ainda sem referência aos artigos esportivos. Também dá a entender que, nessa época, a Cauduro apenas vendia produtos, sem fabricação própria.

Em 1932, observa-se registro de troca da nomenclatura da empresa para Cauduro Irmãos. Acredito que, no final dos anos 1930, a empresa tenha começado a produzir bolas de futebol, com as rebarbas de couro que sobravam das malas, e vender artigos para esportes em geral. Por essa época, a Cauduro foi pioneira no Brasil no desenvolvimento das bolas de couro sem o famoso tento, a dolorosa costura da qual os futebolistas tanto se queixavam, que só foi possível com a utilização da tecnologia do ventil.

img_1019

Em flâmula de fabricante desconhecido, dos anos 1950, aparece a famosa Extra Cauduro Número 5, a bola sem tento (coleção do 1PMFG).

anúncio 3

A mesma bola aparece em anúncios do final dos anos 1940, como nesse do Anuário de Amaro Jr., de 1949.

anúncio 1

No mesmo anuário, em 1951, a propaganda já é mais incisiva (até debochada), mas o carro chefe ainda era a bola sem tento.

Captura de Tela 2018-04-15 às 21.28.06

Em 11 de novembro de 1956, no Jornal do Dia, a Cauduro anuncia o fechamento da “filial” do Edifício Malakoff. Acredito que, quando foi inaugurada, a sede da José Montaury deva ter-se tornado a matriz. A inauguração da sede da Voluntários da Pátria era anunciada para o dia 16 do mesmo mês.

Captura de Tela 2018-04-15 às 21.38.35

Um anúncio de 1957, que apresenta um Popeye estilizado como mascote da empresa, lista os endereços da época.

Além da importância direta na prática desportiva no Rio Grande do Sul, principalmente no futebol, a Cauduro também teve grande influência na difusão e na fidelização do público. Os carnês do campeonato gaúcho foram distribuídos pelas lojas, de maneira gratuita (mas, obviamente, como uma grande jogada publicitária), entre as décadas de 1940 e 1970 e eram uma febre, principalmente entre as crianças. Para preenchimento dos resultados, a loja também distribuia lápis, como distintivo do time favorito do torcedor.

carne 1947 capa

carne 1947 int

No carnê da Cauduro de 1947, há destaque para a bola Extra Cauduro, para chuteiras e (ainda) para as camas (coleção do 1PMFG).

lápis

Para preencher o carnê, nada melhor do que um lápis do seu time favorito. Este é dos anos 1940, com a Extra Cauduro e o Portoalegrense ainda em destaque no nome do Grêmio (coleção do 1PMFG).

Certa vez, li uma postagem de Facebook (infelizmente não guardei a postagem e agora não a encontrei mais) de um senhor contando que seu pai havia lhe prometido uma bola Cauduro, caso terminasse o ano escolar com boas notas. Ele contava que, conquistado o boletim, com os devidos pré-requisitos, o pai o levou até a Cauduro, orgulhoso, com o boletim em mãos para comprar a bola prometida. Chegando lá, contou a história e, após checagem do boletim, o guri recebeu os parabéns de quem o estava atendendo e levou a bola por conta da casa. Nos comentários dessa postagem, mais duas ou três pessoas relatavam histórias parecidas.

Numa edição de 1956 do Jornal do Dia, de Porto Alegre, é destacada a doação de uma bola número 5 da “conceituada e humanitária firma Cauduro” ao Internato Dom João Bosco em Viamão. Sobram relatos desse tipo nos jornais da época. Um deles, inclusive, encerra com uma singela quadrinha em homenagem à famosa bola Cauduro Extra número 5:

“Se você quer ser craque

De fama internacional

Jogue somente com Cauduro

A bola que não tem rival.”

Nos anos 1960, com a entrada de outros colaboradores, a nomenclatura da empresa mudou outra vez, agora para Cauduro, Irmão e Cia. Ltda. Grande importância na expansão da marca teve Elohy Cauduro, filho de Hermenegildo, nascido em 1929. Ele chegou a jogar futebol nas categorias de base do Grêmio, sendo campeão estadual juvenil em 1949, e a se profissionalizar no Renner. Uma lesão no joelho e o aumento das exigências na empresa o fizeram a abandonar o futebol muito cedo. A ele é creditado o período de maior crescimento da loja que, nos anos 1970, chegou a ter sete grandes unidades espalhadas pela capital e pelo interior do estado. Com ele, também, na mesma década, a Cauduro entrou no ramo das representações de grandes marcas esportivas. Elohy faleceu em 2017, aos 88 anos.

Captura de Tela 2019-05-11 às 15.23.57

Na comemoração dos 50 anos, em 1960, a bola em destaque ainda era a Extra (fonte: Mercado Livre).

img_1021

Flâmula comemora os 55 anos da Cauduro, em 1965. A empresa já era Cauduro, Irmão e Cia. Ltda. e seguia na José Montauri e na Voluntários. Nessa flâmula, outros dois detalhes podem ser percebidos: a bola já não é mais a mesma e o logotipo já é bem parecido com o que a Cauduro usou até o final de seu tempo (coleção do 1PMFG).

Carnês da Cauduro de 1968: A garota propaganda, agora, era a bola Cauduro Cromo, a bola que “vale por três das outras”. Provavelmente, o slogan referia-se à durabilidade da bola, algo que a Cauduro promoveu desde os tempos da Extra Cauduro (coleção do 1PMFG).

Captura de Tela 2019-05-11 às 15.12.12

Este é um alfinete de lapela com a bola Cauduro Cromo (fonte: Mercado Livre).

anúncio 2

Neste anúncio de uma Revista do Grêmio, de 1968, nota-se que a casa já estava em três endereços em Porto Alegre: agora também na General Vitorino (inaugurada em novembro de 1966). A bola utilizada na logotipia é muito semelhante à Crack, sa Copa do Mundo de 1962, no Chile (creio que seja a Cauduro Cromo).

Captura de Tela 2019-05-11 às 15.08.22

Aqui, num adesivo, quem faz as vezes de mascote da Cauduro é o Topo Gigio, uma febre dos anos 60 e 70. E a camiseta do Topo Gigio, claro, é vermelha e azul (fonte: Mercado Livre).

Esta camiseta do Pombal Futebol Clube, tradicional clube amador de Porto Alegre, é da Cauduro. Não sei exatamente a época, mas imagino que seja de final dos anos 1970. Possivelmente, essa camiseta tenha sido fabricada pela Perusso e apenas leve a marca da Cauduro. A bola na etiqueta já é de um modelo muito parecido com a Adidas Telstar das copas de 1970 e 1974 e o slogan é “A Casa do Esporte” (coleção do 1PMFG).

Captura de Tela 2019-05-11 às 15.15.59

Uma plaquetinha transformada em chaveiro, com a bola e o slogan dos anos 70/80 (fonte: Mercado Livre).

Captura de Tela 2019-05-12 às 18.40.05

Nessa propaganda publicada no Boletim da Associação dos Especializados em Educação Física e Desportos do RS, em novembro de 1974, o foco passa longe do futebol. Na época, eram cinco lojas (fonte: LUME UFRGS).

O mascote Caudurito, acredito (mas não confirmo), foi criado por Renato Canini, ilustrador gaúcho responsável pelo abrasileiramento do Zé Carioca nos anos 1970 (coleção do 1PMFG).

o encontrei nada muito descritivo sobre o que aconteceu com a Cauduro a partir dos anos 1990, de onde surgiu sua decadência. Certamente, a entrada das grandes fabricantes (e posteriormente das grandes redes de lojas), com preços muito mais competitivos, contribuiu para isso. Fato é que ocorreu uma retração do número de lojas até sobrar apenas a da José Montaury, que vagamente me recordo de funcionar até meados dos anos 2000. Nessa época (e desde o início da década de 1990), tenho quase certeza de que a loja trabalhava apenas com produtos de terceiros, sem produção própria. Pode-se dizer que a Poker, uma pequena gigante do mundo esportivo, fundada por Rogério e Frêdi, filhos de Elohy, mantém ainda a linhagem original da Cauduro. Mas a história da Poker será, alguma hora dessas, tema de outro post.

Nessa chaveiro, com uma arte bem moderna, já se apresentam lojas em dois locais além da Capital: Pelotas e Canoas  (coleção do 1PMFG).

Captura de Tela 2018-04-15 às 10.43.48

Anúncio das malhas Campeã, de Joinville, SC, num Placar de 1977, mostra Elohy Cauduro como representante da marca no RS.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s