As camisetas do Aurora Futebol Clube, de Cerro Largo

Com ilustrações de Evaldo Júnior (erojkit.net)

Antes de mais nada, sou obrigado a dizer: na minha humilde opinião, o Aurora tem o melhor nome e o melhor distintivo da história dos clubes profissionais gaúchos. Fundado oficialmente em 15 de outubro de 1946, é sabido que os guris do Aurora já jogavam bola com esse nome desde meados de 1937. O nome foi dado pelo organizador da equipe, o Irmão Ambrósio, na Escola Sagrada Família (depois La Salle), teoricamente por todos serem jovens no alvorecer da vida. Coincidência ou não, também havia uma moça chamada Aurora, que mais tarde viria a ser, inevitavelmente, madrinha do time.

Logo em 1947, em sociedade com os lassalistas, o Aurora adquire o campo da baixada para a construção do estádio. No contrato, fica estabelecido que o colégio poderia utilizar o campo para a prática desportiva e também para o pastoreio de animais, sendo de responsabilidade dos alunos retirar os bichos do campo na hora do jogo. O campo foi inaugurado no dia 25 de maio de 1947, com dois jogos: primeiro, uma vitória por 7 a 4 sobre o Roque Gonzales; depois, uma derrota por 4 a 2 para o Oriental, de Três de Maio. O Oriental deveria ter vindo alguns dias antes, mas, por uma falha de comunicação, veio no mesmo dia do Roque Gonzales e o Aurora não achou certo fazer desfeita, por isso os dois jogos em sequência.

O Aurora nasceu amador e assim o foi em quase toda a sua existência. Inicialmente, o time disputava o municipal de São Luiz Gonzaga, da qual Cerro Largo era o Quarto Distrito. Em julho de 1948, o Aurora visitou a Argentina, realizando dois amistosos internacionais contra o América, de Itacaruaré (5 a 1), e o Atlético, de Oberá (1 a 2). Em 1950, o clube foi finalmente filiado à FGF e pode ingressar na disputa pelos campeonatos oficiais amadores.

Entre os anos 1950 e 1970, o Aurora foi algumas vezes campeão amador da região das Missões. O auge da equipe, no entanto, se deu em 1982, quando conquistou o Estadual Amador. Naquela temporada, o clube cerro-larguense venceu a chave 5 da competição derrotando (nos pênaltis, após dois empates sem gols e um 2 a 2 na prorrogação) o Santo Antônio, de Frederico Westphalen. O campeonato absoluto foi disputado em Cerro Largo, com a presença, ainda, de Vera Cruz e 14 de Julho, de Itaqui. Como 14 e Aurora venceram o Vera Cruz e empataram entre eles, foi necessário um jogo desempate, vencido pelo Aurora por 1 a 0. Em agosto, num jogo do Estadual contra o Caramuru, o Aurora tornou-se o primeiro time amador gaúcho com patrocínio nas camisetas: Cerealista Olca S/A. Na temporada seguinte, o Aurora foi mais uma vez campeão da região Missões/Fronteira, derrotando o Olaria, de Dom Pedrito, na final. O quadrangular da decisão do absoluto de 1983 saiu apenas no ano seguinte, em Novo Hamburgo, envolvendo, ainda, o Americano local, o Avenida (de Agudo) e o Gloriense (da capital). Na primeira rodada, o Aurora foi derrotado pelo Avenida, num resultado que foi decisivo para o título do time de Agudo. O Aurora ficou com o vice-campeonato.

Entre 1984 e 1986, o clube fez boas campanhas, mas não o suficiente para voltar a decisão do absoluto. Embora houvesse alguma preocupação com o aumento dos custos do futebol, mesmo no amador, surge a intenção de profissionalizar o Aurora, o que se concretiza para a temporada de 1987. A estreia profissional do Aurora ocorreu no dia 29 de março, na Baixada, e resultou num empate em 1 a 1 contra o Elite pela Segundona. A primeira vitória foi na rodada seguinte, também em Cerro Largo, por 1 a 0 contra o Dínamo. Nos próximos 12 jogos, o Aurora conquistaria apenas mais uma vitória e seria eliminado da competição ficando em sétimo entre os oito clubes do grupo. No mesmo ano, o Aurora disputou uma reduzida Copa Cícero Soares, igualmente sem sucesso. Para a Copa, o Aurora utilizou camisetas com patrocínio da IV Expocel. As primeiras camisetas do Aurora como profissional eram idênticas às da temporada anterior, ainda amadora, com patrocínio da retificadora LBK. O modelo titular e o reserva não têm o mesmo padrão.

Nas duas temporadas seguintes, o Aurora conseguiu passar da primeira fase regionalizada na Segundona, mas foi facilmente eliminado na fase seguinte. Ano após ano, a crise financeira se agravava e já em 1989 havia a expectativa de que o clube se licenciasse, o que acabou acontecendo na temporada de 1990. As camisetas das temporadas de 1988 e 1989 acredito que fossem produzidas na Vermelhinho, tradicional apoiadora do clube. Com certeza, ambos os modelos aqui mostrados foram usados em 1988, mas acho bem possível que não tenham sido alterados para a temporada seguinte. As camisetas alternativas, provavelmente, tinham as cores invertidas, mas não encontrei fotos.

Em 1991, o Aurora retorna à Segundona. Depois de uma arrancada muito ruim (um ponto e nove gols sofridos em quatro jogos), o clube abandona a competição. Não consegui descobrir como eram os uniformes da derradeira temporada do Aurora. Alguns anos mais tarde, em 1993, o clube ingressa no futebol de salão que, em princípio, era uma modalidade que dava lucro. Nessa época, o clube já era obrigado a se desfazer, pouco a pouco de seu patrimônio. Em 1995, o time de futebol de salão vence uma seletiva para disputar a Série Prata e, no começo do ano seguinte, logo após uma vitória contra a ACBF, surpreendentemente, encerra as atividades. Em 2001, no estadual sub-20, o nome Aurora Futebol Clube aparece, oficialmente, pela última vez.

Processos trabalhistas, empréstimos, campanhas de arrecadação frustradas e, aparentemente, muito desleixo de consecutivas gestões dilaceraram quase irremediavelmente o patrimônio do Aurora. Na última década, pelo menos três partes da área do estádio foram perdidas, embora as ações sejam questionadas por administradores mais recentes do clube. Uma cerca chegou a ser construída separando uma das goleiras do restante do campo. Possivelmente, o “profissionalismo” matou o Aurora.

As passagens históricas deste texto foram extraídas do excelente blog do Aurora, de autoria de Sílvio Félix Medeiros Filho, que é, sem dúvida alguma, o melhor blog de time inativo do Rio Grande do Sul.

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