As camisetas do Foot-Ball Club Rio-Grandense, de Rio Grande

Com ilustrações de Evaldo Junior.

O Foot-Ball Club Rio-Grandense foi fundado em 11 de julho de 1909. Seu nome é uma homenagem à instituição na qual seus fundadores estudavam, o Colégio Rio-Grandense. Hoje, é difícil saber se a ideia dos fundadores era criar uma terceira força no futebol riograndino, mas a verdade é que não levou muito tempo para que o novo clube rivalizasse com os já bem estabelecidos Sport Club Rio Grande e Sport Clube São Paulo, conquistando seu primeiro título municipal em 1921.

No final dos anos 1930, o Rio-Grandense viveu sua primeira grande fase, no auge da polêmica pelo profissionalismo, sendo campeão municipal entre 1937 e 1940. Durante os três primeiros anos dessa sequencia, as ligas especializadas (Cruzeiro, Grêmio, Inter e São José, por exemplo, disputavam a AMGEA Especializada) não participavam das finais estaduais, controladas pela FRGD, aliada à CBD. Nesse período, o Rio-Grandense chegou a grande final três vezes consecutivas, à época disputada como melhor de três (sendo o terceiro jogo e eventuais jogos subsequentes disputados em campo neutro). Em 1937, Rio-Grandense e Grêmio Santanense venceram seus jogos em casa e empataram um terceiro jogo em Pelotas. Apenas no quarto jogo os colorados santanenses venceram, por 4 a 0, os colorados marítimos, ficando com o título. Na temporada seguinte, o adversário na final foi o Guarany, de Bagé. Mais uma vez, a decisão foi até o quarto jogo. Após um empate no primeiro jogo em Bagé (o que já forçaria o terceiro jogo), o Rio-Grandense venceu em Rio Grande. O terceiro jogo foi disputado em Pelotas e, com a vitória do Guarany, deixou tudo empatado. Dois dias depois, mais uma vez em Pelotas, os times não saíram do empate no tempo normal, obrigando a realização de uma prorrogação. Aos três minutos do tempo extra, o Guarany marcou e uma confusão tomou conta do campo, causando o encerramento da partida e dando o título de 1938 ao time de Bagé. Em 1939, numa reedição da final de dois anos antes, o Rio-Grandense conquistou seu maior título. O primeiro jogo, em Santana do Livramento, terminou empatado em quatro gols. Já em Rio Grande, uma vitória por 3 a 1 deu a vantagem ao Rio-Grandense. O terceiro jogo, disputado no Bancário, em Pelotas, não saiu do zero, o que deu o primeiro e único título estadual ao Rio-Grandense (e o terceiro da cidade do Rio Grande, já que São Paulo e Rio Grande já tinham sido campeões em 1933 e 1936, respectivamente). Na segunda metade da década de 1940, o Rio-Grandense teve outra boa fase, conquistando quatro citadinos entre 1946 e 1950. Em 1946, o clube voltou a disputar a final do Campeonato Gaúcho, mas, dessa vez, foi facilmente derrotado pelo Grêmio, por 3 a 2 e 6 a 1, respectivamente, em Rio Grande e Porto Alegre. Ao todo, o Rio-Grandense conquistou 17 vezes o campeonato riograndino.

Por ter sido campeão citadino em 1960, o Rio-Grandense foi incluído no primeiro Gauchão unificado, em 1961, e, aqui, começarei a contar a história das camisetas do Guri Teimoso. Mas, antes de mais nada, me obrigo a fazer uma pausa e contar que sou muito simpático ao colorado marítimo. Em primeiro lugar, porque o time desperta um fascínio semelhante ao do Farroupilha, em Pelotas, ou ao do América, no Rio de Janeiro. Mas também porque, no começo dos anos 2000, encontrei um blog sobre o Rio-Grandense, elaborado e mantido pelo jornalista Paulo Acosta. Nessa época, eu e um dos meus grandes amigos (que é uma enciclopédia do futebol gaúcho, mas uma enciclopédia discreta, porque é avesso a redes sociais e coisas tais) criamos um blog para o Esporte Clube Cruzeiro (outro clube do mesmo nicho) e passamos a acompanhar o clube no Estrelinha. Na tentativa de me comunicar com torcedores de outros times gaúchos, encontrei o dito blog, que ainda se encontra parcialmente acessível, e lá li o texto “Eu, guri!”. Achei a história emocionante: O pai levando o filho num jogo do time do coração, muito tempo depois da última vez, num estádio quase varzeano, contra um time de nenhuma expressão. O filho se dando conta de que a camiseta do goleiro era uma do Juventude, até com patrocínio da Parmalat. As camisetas sem distintivo… O texto ficou na minha cabeça por muito tempo e, recentemente, fui atrás dele e pensei em entrar em contato com o autor. Acabei descobrindo que o senhor Paulo faleceu jovem, ainda em 2005. Uma pena.

Logo em 1961, o Rio-Grandense fez uma campanha muito ruim, ficando em último lugar com 17 derrotas em 22 partidas. No ano seguinte, disputou um chamado Torneio da Morte, juntamente com o penúltimo colocado da elite (o São José) e os dois primeiros da Divisão de Acesso (Brasil de Pelotas e Atlântico). Como ficou em terceiro, foi obrigado a ir para a segunda divisão, onde permaneceu até 1965. Em 1965, foi campeão, derrotando o Gaúcho na final e tendo o direito de disputar o Torneio da Morte contra o Cruzeiro (último colocado da elite). Depois de vencer em Rio Grande pelo escore mínimo, o Rio-Grandense, em histórica partida, empatou em dois gols na Montanha, voltando para a primeira divisão. Na primeira divisão, o Rio-Grandense figurou sempre na segunda metade da tabela, até ser novamente rebaixado no inchado campeonato de 1968. Ao longo dos anos 1960, o Rio-Grandense teve poucas variações nas camisetas. A vermelha começou a década igual às da década anterior, com gola simples em V, mas já em 1962 tinha gola do tipo polo. A amarela sempre foi com gola tipo polo, com as cores invertidas em relação à vermelha. Vi, pelo menos, uma foto dos anos 1960 com a tradicional camiseta com as mangas de cores diferentes, mas acredito que não fosse uma foto de jogo e sim de treino e que as camisetas fossem mais antigas.

Nas divisões inferiores, fica muito difícil de precisar a data de cada camiseta. Mas, acredito, na troca da década para os anos 1970, o clube passa a utilizar uma camiseta vermelha muito parecida com a dos anos 1950, com gola simples em V (esse tipo de camiseta voltaria com frequência). Além disso, me parece ser da mesma época uma camiseta com modelo idêntico, porém branca.

Ainda na primeira metade dos anos 1970 (provavelmente entre 1972 e 1975), o Rio-Grandense utiliza três camisetas com golas muito parecidas: uma vermelha, uma amarela e uma vermelha com três listras verticais paralelas em amarelo. Em 1973, o Guri Teimoso venceu a primeira Copa Cícero Soares, com 32 participantes, garantindo vaga (juntamente com o vice-campeão) no Gauchão do ano seguinte. A final foi realizada no Beira-Rio, já em fevereiro de 1974, e o Rio-Grandense derrotou o Pratense por 3 a 1.

Em 1975, por sinal, o campeonato da primeira divisão dobrou de tamanho e, consequentemente, o Rio-Grandense, manteve-se na primeira divisão, onde estaria também na temporada seguinte (devido à classificação na Copa do Governador, pelo terceiro ano consecutivo). A partir de 1976, começam a aparecer camisetas com outro modelo de gola, que lembra um pouco o estilo de gola da 99 Malhas. Na temporada de 1976, a camiseta vermelha chegou a ser utilizada sem distintivo. Ainda em 1984, com pequenas modificações, modelos semelhantes continuavam a serem utilizados. Na mesma época, também aparecem camisetas vermelhas muito semelhantes às do começo da década de 1970. De qualquer forma, os registros fotográficos dessa época são raros.

Em 1984, o Rio-Grandense foi vice-campeão da Divisão de Acesso, perdendo o octogonal final para o Gaúcho, mas garantindo vaga na elite em 1985. Na primeira divisão, a campanha do colorado marítimo não foi nada boa, com apenas três vitórias em 26 jogos, e resultou no rebaixamento do time. A temporada também foi a última do saudoso Estádio Torquato Pontes, do qual o Rio-Grandense despediu-se, em 27 de novembro, ao menos, com uma vitória de 3 a 1 sobre o Esportivo. (Obs.: De todas as memorabílias possíveis de estádios de futebol gaúchos, acho que uma das mais legais seria um pedaço da mureta do Torquato Pontes, com os mui característicos vazados em círculo.) Se por um lado a temporada não foi boa, por outro, as camisetas utilizadas foram muito legais. Além de seguir utilizando a camiseta vermelha de temporadas anteriores, foram utilizadas uma camiseta amarela (uma das primeiras produzidas pela Perusso para times profissionais) e uma branca (que considero uma das mais bonitas da história do Rio-Grandense).

Ainda em 1985, foi inaugurado o Colosso do Trevo (que, oficialmente, também se chama Torquato Pontes). Aparentemente, seria um bom negócio: o clube entregava a área do Torquato Pontes, próxima ao centro e que viraria um supermercado, e seria construído um estádio moderno e muito maior, numa região mais afastada. Apesar de, por diversos motivos, o novo estádio ter fracassado junto com o clube (quase nunca dá certo mandar um clube do centro para a periferia), há de se destacar que, de todos os exemplos de permutas que ocorreram ao longo da história do futebol gaúcho, essa é uma das poucas em que o clube realmente saiu com um estádio novo e a tempo! Infelizmente, eu não encontrei absolutamente nada sobre as temporadas na divisão de acesso entre 1986 e 1989. Depois, o Rio-Grandense licenciou-se por três temporadas, retornando apenas em 1993, com camisetas confeccionadas pela Timesport, de Pelotas.

Não encontrei registros fotográficos de 1994, mas, em 1995, depois de muitos anos, o Rio-Grandense volta a utilizar as mangas de cor diferente do corpo da camiseta, algo até certo ponto tradicional no clube. No ano seguinte, as camisetas trocam e, pelas fotos, me lembram muito os modelos fabricados pela Kila, de Porto Alegre, na mesma época (embora tenham botões de pressão na gola, o que eu não me recordo de ser utilizado pela Kila).

No final de 1997, o Rio-Grandense é novamente licenciado, mas retorna com o relançamento da Terceira Divisão, em 1999. Em algum momento dos anos 1990, o Rio-Grandense usou um modelo clássico da CCS. Apesar de eu só ter encontrado a camiseta branca, tenho quase certeza de que também foi utilizado um modelo vermelho. Embora o Brasil de Farroupilha tenha usado esse mesmo modelo ainda em 1994, eu poderia apostar que o Rio-Grandense utilizou essas camisetas em 1997 e, talvez, ainda em 1999 (mas não consigo garantir). Também em 1999, me parece que o Rio-Grandense tenha utilizado uma camiseta vermelha com um grande logotipo centralizado no peito. Em 2000, pelo menos, a camiseta vermelha mudou, ficando um pouco parecida com às de 1996. Ao longo desse período, também foram utilizadas camisetas produzidas pela Jucisport (no mínimo o modelo branco com listras horizontais no peito, além de uma amarela de mangas longas), mas não consegui precisar o ano.

Atualização (22/04/2019): A camiseta amarela com listras grossas vermelhas nas mangas certamente foi utilizada na temporada de 1996.

Após a temporada de 2000, o Rio-Grandense licenciou-se novamente, tentando retornos em 2002 e 2004, sem sucesso. Desde o final da temporada de 2004, o clube retorna, eventualmente, de maneira amadora. Mas o guri é teimoso. Então, mais cedo ou mais tarde, ele deve voltar.

Fora a história das camisetas, tem mais algumas coisas a serem comentadas:

Uma delas é que existe uma biografia sobre Antônio Azambuja Nunes, o Nico, escrita pelo Nilo Dias, de São Gabriel. O título do livro é “Nico – O Bombardeador” e ele pode ser adquirido na Livraria Vanguarda, de Pelotas (que está com o site temporariamente fora do ar). Eu não tenho nenhuma relação com o autor, com a editora ou com a livraria e, na verdade, ainda nem li o livro. Mas eu acho, sabendo de longe, a relação entre o Nico e o Rio-Grandense, uma das mais bonitas do futebol gaúcho, chegando a ser comovente. Foram muitos e muitos anos de relacionamento com o clube. Poucos duetos jogador-clube são mais identificados do que esse, se é que existe algum no estado.

O Rio-Grandense, tradicionalmente, revelava bons jogadores. O maior deles é, sem dúvida, Sidney Colônia Cunha, o Chinesinho, filho de Chinês, campeão de 1939. Chinesinho jogou pouco tempo como profissional pelo Rio-Grandense, mas sempre que voltava a Rio Grande fazia questão de frequentar o clube. Depois de sair de Rio Grande, além de ter jogado por quatro temporadas pelo Internacional, foi campeão brasileiro pelo Palmeiras, em 1960, e italiano pela Juventus, em 1967.

Além disso, agradeço a Cristiano e Lênin Landgraf por terem me dado uma mão em tentar descobrir informações sobre as camisetas. Talvez agora, com o artigo publicado, fique mais fácil para outras pessoas contribuírem com correções ou adições. Entrem em contato.

Acervo do 1PMFG

Chaveiro desaforado comemora a conquista da vaga para a elite do Gauchão 1974 com o título da Copa Cícero Soares, em 1973. Nos anos 1970, os times de Rio Grande (especialmente, Rio-Grandense e São Paulo) tinham chaveiros desse tipo, com expressões de duplo sentido, sempre com conotação sexual.

A camiseta amarela, fabricada pela Perusso, que foi utilizada na temporada de 1985.

A camiseta branca, fabricada pela Timesport, que foi utilizada na temporada de 1993.

2 comentários sobre “As camisetas do Foot-Ball Club Rio-Grandense, de Rio Grande

  1. Wagner disse:

    Chama a atenção o time ter inaugurado o Colosso do Trevo e fechar em pouco tempo. Que desperdício.
    De fato, o relato da falta de distintivo na camisa do FBC Riograndense é uma das coisas mais comoventes que eu já li sobre futebol.

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